terça-feira, 7 de julho de 2015

Não se trata só de abrir os olhos, é preciso arregalar - Sobre o Encontro

Nasci e cresci numa vila periférica na Zona Leste de São Paulo, famílias muito parecidas, pouca diversidade, uma escola onde eu era o mais estranho de todos por usar black power (Ou melhor, eu passava litros de creme todos os dias para entrar no "padrão mais aceitável" de cachos). Apesar de ser diferente externamente, por dentro eu era como a maioria, fechado, intolerante, preconceituoso.
Fiz o colegial numa ETEC mais próxima ao centro, com alunos de todas as regiões da cidade de São Paulo e além dela, eram muitas diferenças, e não tinha mais a sensação de ser o mais esquisito da escola, afinal quando uma das primeiras pessoas que você se depara é uma garota fantasiada de pikachu às sete da manhã de um dia útil, é bem difícil não perceber que acabou de entrar em outra realidade.
Pouco tempo depois entrei nesse processo de anatomia do olhar (Que pretendo explicar num próximo post com um desenho supimpa), percebendo como eu não enxergava que existiam tantas verdades além da minha, e assim comecei a mudar e me permitir entender as demandas das outras pessoas e até mesmo as minhas, finalmente assumi meu black power de uma vez, nada de creminho, deixei meu lado Africa aflorar e me redimir - como diz Criolo.
Mas depois de chegar onde estou e olhar para meu passado tão fechado, lembrando de como ele nem se quer se abria para o diálogo, para tentar entender outras verdades, a dúvida me tomou: Como eu me permiti? O que mudou? Como criar um ambiente em que as pessoas se sintam a vontade para conhecer assim como aconteceu comigo? Eu não sabia (E ainda não sei ao certo).
Há pouco tempo viajei para o Rio de Janeiro, foi a primeira vez que saí de São Paulo, a viajem foi boa, não tenho do que reclamar, mas ela me fez perceber algumas coisas: Eu saí da minha casa, entrei num carro, fiquei horas nesse carro, saí dele e entrei em outra casa. Lá eu ia para a praia e para as lanchonetes do centro sempre com minha família, não ouvi sotaque carioca nenhuma vez. E percebi que eu não havia saído de São Paulo.
Nós aprendemos a conviver de forma privada desde pequenos, separando o Eu do Outro, e se distanciando do Meio que nos une. Essa vida de ser privado nos dá a sensação de segurança e comodidade quando criamos muros, muros altos com cerca elétrica. Esse muros são móveis como vemos nos carros, e se criam quando nos mantemos em nossa realidade familiar mesmo que em outra realidade, não nos permitimos experienciar aquela outra verdade. E foi o que me fez notar que as cidades não são os monumentos ou paisagens que existem nelas, mas as pessoas. Os monumentos e paisagens são espaços para interações com essas pessoas, e o aprendizado, a experiência da viagem é quando você se abre para essa interação, a experiência se dá no encontro.
Logo eu encontrei a matemática básica que me ajudava a entender melhor a minha experiência na ETEC. O medo adicionado à Ignorância cria esses muros e também o ódio para as coisas que estão além das suas fronteiras. O que aconteceu então para que eu não acessasse essa defesa naquele ambiente? Eu percebi que, assim como na minha viagem, a Ignorância é na verdade o conhecimento de uma única verdade, quando eu permaneço com as pessoas que são iguais a mim eu me mantenho nessa mesma realidade, se não tem ninguém que eu conheça ali eu me torno um forasteiro, ao me tornar um forasteiro eu acesso o medo, que são as minhas armas, mas se no lugar do medo houver acolhimento eu não vou ter necessidade de usar as armas, vou me sentir constrangido por querer atacar enquanto as pessoas me dão amor. E foi o que aconteceu, quando me deparei com todas aquelas pessoas estranhas e eu estava sozinho, eu entrei na defensiva, mas quando fui recebido com amor eu não conseguia entender como pude odiá-las por tanto tempo.
Quando comecei a me permitir amar de volta eu passei olhar para o meu eu do passado e todas as pessoas da minha antiga convivência e perguntei a mesma coisa "Como vocês podem odiar quem os ama?", passei a odiá-los. Mas só depois de muito pensar que eu percebi que eu havia criado outro muro, estava encrustado em mim essa ideia de dicotomizar, alguém sempre deveria estar errado, alguém deveria ser o vilão e alguém o herói, mas o ódio e a violência só continuaria imperando enquanto eu antagonizasse de volta.
Notei que eu tive a chance de ser forasteiro e de ser acolhido, mas que nem todas tem a oportunidade de trocar a lente desse olhar deformado da realidade. Como vou saber se o desinfetante que meu vizinho faz em casa é muito melhor e mais barato que o que passa todos os dias na televisão sendo que ele me convence com todo o seu marketing que é melhor? Ele não necessariamente é melhor para mim, só tem mais dinheiro para ser televisionado, e me faz acreditar que quando vou no mercado estou escolhendo livremente, sem nem parar pra pensar o quanto democracia e demagogia, apesar de rimarem, são diferentes.
Mas como dar a oportunidade das pessoas se sentirem forasteiras e acolhidas se elas permanecem dentro de muros onde a única janela pra realidade é a TV? Afinal, é assim que o desinfetante do comercial fica cada vez mais rico e o vizinho que resolveu fazer um alternativa não é visto nem é consumido... É como se ele nem se quer existisse. Porque será que as alternativas não existem? Educação alternativa, mercado alternativo, cultura alternativa, mobilidade alternativa... Porque é tão difícil perceber as alternativas como possibilidades? Continuo sempre ouvindo aquela típica frase "Mas você pensa assim por que é hippie", ou pior: "Mas você pensa assim por que é mais inteligente", e seguimos criando muros maniqueístas: Aqueles são bons, aqueles maus, aqueles são certos, aqueles errados, aqueles inferiores, aqueles superiores, ao invés de observar a todos como possibilidades de viver uma mesma realidade.
Como que as grandes marcas, as formas comuns de mercado, a educação formal e etc se mantém então? Por que elas não respeitam muros, elas invadem pela TV, elas estão na escola, no clube, no meio do caminho. Nós não temos dinheiro para competir com toda essa propaganda, mas temos a rede, a teia... E com isso não digo só a internet, mas como seria se houvessem feiras espontâneas de quadrinhos no meio do passeio público? Montar barracas de degustação vegana em festivais de comida do bairro? Como seria se resolvessemos educar de forma alternativa no meio da rua? Fazer com que vejam alternativas, viver essa alternativa em rede, em grupo, viver uma cidade alternativa dentro da cidade e sem criar muros, mas sim aproximar mais gente.
As vezes até ao pensar coletivo nós nos distanciamos, nos limitando novamente em grupos que nos entendem e esquecendo de criar pontes pra que mais gente venha. Mas apesar de todos termos pontos de vista diferentes para a mesma realidade, todas essas pessoas que citei querem a mesma coisa: Transformar a cidade. E o que acontece se nós começamos quebrando os muros entre nós? Na escola a gente aprende sobre o habitat natural de vários mamíferos, mas por que não aprendemos sobre o nosso próprio habitat? Quando pessoas que pensam em alternativas pra educação se juntam tem mais ideias, quando pessoas que pensam em alternativas para mobilidade urbana  se juntam tem mais ideias, e se esses dois grupos se juntassem? Se juntassem ainda com quem faz ação social, faz horta comunitária, dá bom dia e boa noite pra todo mundo na rua, ou as vezes ainda não sabe o que fazer, mas tem vontade. Até onde poderíamos chegar com todas essas ideias pensando em uma cidade alternativa, mais humana, mais viva?
-Construindo pontes no lugar de muros
-Construindo estações de energia humana que acendam toda uma cidade (e além)
-Reformando e Pintando lugares com muitas cores (de pele, de roupas, de cultura, de ideias)
-Ocupando todo lugar com transformatividade
-Criando redes/teias entre coletivos, práticas, ações, espaços etc aproximando mais as muitas ideias.
E tudo isso começa quando se arregala os olhos, não basta só abrir, é preciso arregalar pra ter uma visão panorâmica de onde vivemos e convivemos.
Já que o todo é muito maior do que a soma das partes.
O meio, como disse antes, é o espaço para o encontro, então como manter a cidade se transformando para que os encontros permaneçam acontecendo e a experiência "cidade" se reinventando? E como se transforma esse meio se eu não tenho dinheiro, não tenho tempo, não tenho ideia? Já ouviu falar do poder da multidão? O poder da multidão muitas vezes é atrelado à coisas terríveis que foram feitas em conjunto, mas quando esse poder se encontra com a sabedoria da multidão muita coisa muda (não é só conhecimento, mas a sabedoria da multidão!), as ideias e as ações surgem, e essa força alcança possibilidades que pareciam impossíveis. É o poder da egrégora.
Por isso faço esse chamado para pensarmos juntos, para co-criarmos e vivenciarmos a cidade com mais pontos de vista. No Primeiro Encontro de Ideias Práticas para uma Cidade Transformativa, transformações ativas, contínuas, sustentáveis, e que até esse encontro se invente e reinvente sempre.


Vamos olhar juntos?



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