quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Estado de Milho, Efeito Pipoca. - Sobre sociedades enrustidas.

"Como eu posso aprender o outro e a verdade do outro? E como isso pode ajudar a ver melhor, a me ver, a olhar pra minha nuca?"

Essa foi uma pergunta que me fiz quando comecei meu doutorado informal... E fiquei um bom tempo tentando entender o sentido de eu querer entender olhares de outras pessoas se isso era um processo de mergulho em mim. De que serviria o outro se eu estou querendo me conhecer? Não conseguia entender o motivo pelo qual eu acreditava que o enxergando eu poderia me enxergar também, eu tinha consciência apenas de que aquilo era algo pulsando por dentro.
Comecei esse mergulho (doutorado informal) na mesma época em que comecei a me apresentar como Ciano, o nome que recebi dos meus pais não é esse, mas esse nome surgiu de dentro pra fora, era uma ideia que surgia no âmago e tomava minhas entranhas, e aos poucos sinto que minha pele se tingirá também de um ciano brilhante e intenso... Não precisei negar meu nome, ou a construção que eu estava vivendo, apenas me abrir para essa força interna, e as mudanças vieram muito naturalmente.
Mas esse processo de descoberta só foi possível quando eu descobri que existiam mais verdades possíveis além das que me foram apresentadas, só quando vi muitas verdades que pude entender as minhas. Eu era um milho dentro de um saco de milhos, um milho que não germinaria, era apenas uma casca rígida. Eu era o que fui projetado para ser, e comecei a perceber que havia algo mais potencial por dentro, e virei do avesso.
Os exemplos de renascimento são interessantes pois dependem de ambientes que assegurem essa mudança, de momentos que desencadeiem isso: uma lagarta que não se alimenta devidamente morre antes de virar borboleta, ou quando alguém força a saída da borboleta de seu casulo, ela não se desenvolve e morre. Uma fênix precisa passar pela morte para ressurgir, assim como a águia que arranca suas penas, garras e bicos em lugares muito altos. Uma semente precisa de água, minerais, terra e luz para germinar e um milho precisa de óleo e calor para estourar e assumir sua forma interna. 

***

Quando levei a oficina de Anatomia do Olhar para algumas escolas ocupadas eu notei o que eu já tinha esquematizado há um tempo (sobre a dependência-independência-interdependência), era um processo muito vivo e visível, mas também muito natural. Não me pareceu que eles leram muito sobre grandes estudiosos ou livros famosos sobre pedagogia ou mesmo vida em comunidade, gestões horizontais, etc. Me parecia muito uma experiência viva, descobrindo em cima de erros e acertos, externando algo que já pulsava por dentro, assumindo a forma que eles já tinham, mas eram forçados a esconder.
Tivemos um momento de luto antes de começar a mergulhar no debate, compartilhamos experiências ruins no ensino formal, e o que eu mais via eram explicações de como suas potências foram reprimidas, como que o esquema em que eles estavam inseridos os forçava a permanecer dentro de suas cascas de milho infértil, impedindo a todo o custo que eles assumissem seus formatos diferentes de pipoca. Eram pessoas enrustidas, e é isso que aprendemos a ser em todos os âmbitos da vida: Pessoas enrustidas. Pessoas que não se empoderam de si mesmas, não sabem quem são, e escondem por dentro o que acreditam por medo da repressão.
Nas escolas eu tinha um papel de oficineiro no princípio, mas aquilo se perdia, pois meu doutorado informal era exatamente aprender com eles, e permitir que eles aprendessem comigo, de repente estávamos todos em panelas de óleo fervente, e as ideias pipocavam.
O mais engraçado? Nos serviram pipoca para comer.
A resposta é sua, a pergunta é do encontro. A sociedade te impede de ser alguém que assume suas responsabilidades, desejos, necessidades, etc, mas é exatamente na relação social que nós podemos assumir tudo isso, é através do outro, do contato, do atrito, através do ambiente e das suas condições! A potência está dentro, mas se empurra para fora, pois é no ambiente que ela se consolida, e pelo ambiente que ela potencializa, num ciclo de desenformar e dar forma, de desconstruir e construir.
A educação se dá no encontro das potências. A potência se dá na educação.
Será?

Continuem de olho,
Ciano.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Estados da matéria.

       Ando notando que eu consigo perambular por três estados: o de paz, o de caos e o de guerra... Paz e caos se complementam; na paz as coisas se organizam harmonicamente, e fica simples criar; o caos já é a desconstrução, é um momento de bagunçar! Tirar tudo pra fora das gavetas da mente, repensar, reciclar... Como se fossem processos constantes de morte e renascimento. Primavera e outono. Liberação e recuperação. Inspirar e expirar. Mas sozinhos eles se destroem! Constante caos te consome, até não restar mais combustível. Como um corpo sem alimento, que aos poucos começa a se alimentar de si mesmo para sobreviver. Constante paz te sufoca, acumula energia sem liberar, apenas criando e criando até explodir, como uma panela de pressão.
     E temos o terceiro estado: Guerra. É interessante perceber que os dois outros estados, quando sozinhos, são bons estopins para a guerra: A escassez, e o excesso (que é o outro tipo de escassez). Quando não se tem essa energia, fazemos guerra para pegar de quem tem. E quando temos muita energia a insegurança da explosão cria guerra também, é preciso mostrar todo esse poder (pois há escassez por trás do excesso). A Guerra destrói a nível de não recuperação, diferente do Caos que recicla para que a Paz crie, e por isso esse terceiro estado é prejudicial. A guerra se desconecta de si e do outro.
     Nos últimos tempos estive em estado de guerra, por isso me distanciei do blog, mas em compensação me aproximei cada vez mais do que eu queria vivenciar com esse processo de graduação informal (até por que estes três estados não se distanciam tanto, é muito fácil entrar em estado de guerra, mas é tão fácil quanto entrar nos outros dois estados ao mesmo tempo). Eu estava conectando muitas coisas, mas não percebia isso pois a guerra nos cega. Mas de repente eu encontrei uma pequena conexão com minha potência e a guerra cessou, virou um conflito. Como se largássemos as armas, que distanciam, desconectam do tato e partíssemos para um movimento. Não um combate corpo a corpo, mas exercer contato no corpo do outro, impelindo força, como quando as pessoas giram agarradas no chão, mas parece mais um abraço, como se a gente percebesse que queda de braço é um aperto de mão. Entrei então nesse estado de conflito que é o caos, e me conectei ao problema ao invés de me fazer tentar destruí-lo.
    Quando eu voltei ao estado de paz tudo começou a ficar claro e eu entendi um processo que eu tinha vivenciado, eu não entendia tanto o significado real do doutorado informal, haviam me convencido, mas se convencer não é acreditar. A partir daí percebi outros três estados, três estados da experiência (do aprendizado, do compartilhar). O dependente, o independente e o interdependente.
    Me encontrava no aprendizado dependente, que é o mais comum, muitos pais e principalmente a escola nos criam para sermos dependentes, esse tipo de aprendizado nos desconecta de nós mesmos, e passamos a acreditar que dependemos de outras pessoas, que não conseguimos, que é difícil demais, já que somos incapazes (escassez). Depois que eu me reconectei comigo mesmo (isso ainda no colegial, mas não saí por completo do aprendizado dependente) entrei no aprendizado independente, que também é comum. É quase como aquele aluno bagunceiro que costuma ser um dos mais geniais, mas é também o mais incompreendido. Quando entramos na independência nós descobrimos que conseguimos algo, mas entramos num estado de "Acredite em mim, eu consigo", ainda em convencimento e não em crença pura. E como o modelo social é o modelo da dependência (apesar de nos pedir independência, confuso, eu sei) e tenta nos provar que somos incapazes, nós nos desconectamos do outro, e passamos a acreditar que não precisamos de ninguém, mas no fundo achamos que não merecemos. (excesso, que esconde escassez).
    Mas aos poucos estou descobrindo esse terceiro estado, o de interdependência, que não nega nenhum dos dois anteriores, nem os repete, mas transmuta. No estado de interdependência eu passo a entender que: Não dependo de ninguém, mas preciso de todos. Me reconecto com a potência do ambiente e com minha própria potência e as possibilidades surgem muito naturalmente, eu passo a confiar ao invés de pedir que me convençam (Acredite em mim, eu consigo), e deixo de me inferiorizar em relação ao outro, mas apenas confio nele também.
-Na dependência eu acato a energia que vem de cima na dicotomia (ele superior, eu inferior -ganha/perde)
Me sinto incapaz.
-Na independência eu forço de volta, tentando empurrar a energia que me aperta (eu superior, ele superior -perde/perde)
Me sinto não merecedor.
-Na interdependência eu penso no mundo de forma horizontal, as energias não se apertam, mas se completam e criam pontes (conexão sem dicotomia - ganha/ganha)
Me sinto humano.
    Quando notei que havia muito desses dois processos no meu de aprendizagem informal eu percebi o que estava impedindo que tudo isso fluísse, e mais! Percebi que estava fluindo esse tempo todo, mas não da forma como eu pensei, ao me abrir para uma educação informal e tão logo interdependente, eu me abri para me educar a todo instante, vi que eu não escolho com quem aprendo, e nem quem aprende comigo. Que é preciso apenas o encontro, o encontro com o outro, e o encontro com a potência que existe em mim, que me diz "Eu não sabia que eu sabia isso". E daí eu descubro algo além da escassez, e do excesso (de escassez): A abundância (que está além de não ter ou ter, está no compartilhar, no ser)
    E aos poucos vou entendendo que sei por que no processo de entender a anatomia do meu olhar eu tenho tanto que me conectar ao olhar de tantos outros. E eu não sabia que sabia.


Bons olhares, Ciano.


sábado, 11 de julho de 2015

Anatomia do Olhar - INTRODUÇÃO

Alguém já contou que nós enxergamos de ponta cabeça? Nosso cérebro é quem inverte as imagens. Alguém já te perguntou se o verde que uma pessoa qualquer enxerga é diferente do verde que você enxerga? No final das contas tudo que vemos é reflexo de luz, uma ilusão, e é difícil saber quem vê a realidade mais próximo do real. Muitos acreditam que as pessoas ditas como loucas são as mais sãs, e eu já me perguntei se os daltônicos é que enxergam direito e a maioria das pessoas está errada, mas se for assim, no final ninguém está errado! Só tem pontos de vista diferentes: 
Isso foi uma tentativa falha de desenhar um prisma, vocês já devem ter visto um símbolo muito parecido na capa do álbum "The dark side of the moon" da banda Pink Floyd (foi minha referência - Vale também fazer uma observação sobre a banda e a referência ao espectro de cores: A cor rosa não existe! Mas isso não vem ao caso), acredito que essa imagem explica muito bem o que entendo por Olhar. Aqui vemos a luz entrando em contato com o prisma e ele destrincha essa luz em cores, é o fenômeno do arco íris que conhecemos bem, um espectro com todas as ondas de cor da mais curta a mais longa toma o céu, ou as proximidades de prismas, e somos agraciados com a beleza que é a luz desfragmentada, todas as cores que formam o branco (sim! o branco é a mistura de todas as cores, talvez algum professor tenha te dito isso), isso falando das cores de luz (RGB) e não nas cores de pigmento (CMYK), que são aquelas que aprendemos na aula de artes como cores primárias: Amarelo, Magenta (não é vermelho) e Ciano (como meu nome, e também não é azul), mas até mesmo as cores de pigmento dependem das cores de luz para existirem! 
Nessa imagem eu transformei aquela imagem em algo mais próximo do que eu entendo por olhar... Diferente do Olho que é um órgão do ser vivo "Eu", o olhar é uma ponte que passa por muitos lugares (Meio, Outro e Eu). No olho temos a pupila que é como um buraco negro que atrai essa luz, ela é a parte que nos conecta ao meio, que eu chamo de realidade (que é um ponto de interrogação), e assim como o prisma, o globo ocular (Outro) recebe essa luz e direciona até o cérebro (Eu) onde a luz desfragmentada trazendo informações da realidade pode ser transformada de estimulo luminoso para outra energia e assim criamos a nossa verdade (que é diferente de realidade), que chamo de ponto de vista, esse ponto de vista produz ideias, formas de viver, de pensar, agir (ali representei com um brainstorm). Mas entre a entrada de luz, e a saída de cor a gente recebe uma influência ali no globo ocular que pode deformar nossa visão de realidade. É como a miopia que desvia a luz, e assim enxergamos de forma turva, essas influências são causadas pelo encontro com o outro. E como se evitam essas influências? Não se evita, isso é muito natural, mas pode-se perceber e aprender a controlar mais essas influências com filtros.
Para imaginar a realidade vamos pensar em desenhar um modelo vivo: Todos os artistas se posicionam ao redor de uma pessoa nua, que independente do ângulo continua sendo exatamente a mesma pessoa, com suas próprias verdades, vontades, sentimentos, necessidades. Cada pessoa vai desenhar sua posição do ponto de vista que está, e dois corpos não ocupam o mesmo lugar, logo dois pontos não ocupam o mesmo ponto de vista! Se eu sento no mesmo lugar que alguém essa pessoa vai enxergar a minha nuca e não o modelo (Enxergar a nuca de alguém me lembra a disposição da sala de aula! Dá para pensar nisso mais profundamente haha). Então cada um em seu lugar desenha uma pose, depois outra, depois outra.
Se resolvermos olhar todos os desenhos depois e compará-los, veremos várias verdades, e não será possível dizer qual é mais real, por que já não lembramos mais das poses (nem sabemos que a forma como a maioria das pessoas enxerga aquela pessoa é real, ela é um reflexo de luz, uma ilusão, não é mesmo?). Passamos nossos olhos por todos aqueles desenhos, e não há certo nem errado, todos desenharam a realidade, mas de seus pontos de vista, os desenhos são as muitas verdades, as muitas formas de enxergar. A modelo interferiu nessa visão, por que ela vibra uma energia, sente algo enquanto faz suas poses, pensa algo, e nossa percepção da realidade chega encharcada do ponto de vista da modelo, e se choca com nosso ponto de vista, nossa verdade, nossa emoção atual, as experiências que vivemos. Tudo isso vai interferir em todos os desenhos que estamos vendo juntos.
E de repente ao ver que o colega do lado fez seu desenho com giz pastel a gente percebe que existe outra forma de verdade, já que fizemos com nanquim, e assim acontece um novo encontro, um novo olhar um novo ponto de vista e uma nova ideia.
O processo do olhar é vivo e acontece a todo instante, você tendo olhos ou não, por que olhar não é um simples órgão, mas um fenômeno da vida, das relações.
Nos próximos textos vou explicar o que entendo por relações (Eu, Outro, Meio) e destrinchar cada parte desse olhar que imagino. Tudo a partir do meu ângulo, que é diferente do seu! Mas e aí? Como você enxerga tudo isso? Qual tua verdade?


Bons olhares.




terça-feira, 7 de julho de 2015

Não se trata só de abrir os olhos, é preciso arregalar - Sobre o Encontro

Nasci e cresci numa vila periférica na Zona Leste de São Paulo, famílias muito parecidas, pouca diversidade, uma escola onde eu era o mais estranho de todos por usar black power (Ou melhor, eu passava litros de creme todos os dias para entrar no "padrão mais aceitável" de cachos). Apesar de ser diferente externamente, por dentro eu era como a maioria, fechado, intolerante, preconceituoso.
Fiz o colegial numa ETEC mais próxima ao centro, com alunos de todas as regiões da cidade de São Paulo e além dela, eram muitas diferenças, e não tinha mais a sensação de ser o mais esquisito da escola, afinal quando uma das primeiras pessoas que você se depara é uma garota fantasiada de pikachu às sete da manhã de um dia útil, é bem difícil não perceber que acabou de entrar em outra realidade.
Pouco tempo depois entrei nesse processo de anatomia do olhar (Que pretendo explicar num próximo post com um desenho supimpa), percebendo como eu não enxergava que existiam tantas verdades além da minha, e assim comecei a mudar e me permitir entender as demandas das outras pessoas e até mesmo as minhas, finalmente assumi meu black power de uma vez, nada de creminho, deixei meu lado Africa aflorar e me redimir - como diz Criolo.
Mas depois de chegar onde estou e olhar para meu passado tão fechado, lembrando de como ele nem se quer se abria para o diálogo, para tentar entender outras verdades, a dúvida me tomou: Como eu me permiti? O que mudou? Como criar um ambiente em que as pessoas se sintam a vontade para conhecer assim como aconteceu comigo? Eu não sabia (E ainda não sei ao certo).
Há pouco tempo viajei para o Rio de Janeiro, foi a primeira vez que saí de São Paulo, a viajem foi boa, não tenho do que reclamar, mas ela me fez perceber algumas coisas: Eu saí da minha casa, entrei num carro, fiquei horas nesse carro, saí dele e entrei em outra casa. Lá eu ia para a praia e para as lanchonetes do centro sempre com minha família, não ouvi sotaque carioca nenhuma vez. E percebi que eu não havia saído de São Paulo.
Nós aprendemos a conviver de forma privada desde pequenos, separando o Eu do Outro, e se distanciando do Meio que nos une. Essa vida de ser privado nos dá a sensação de segurança e comodidade quando criamos muros, muros altos com cerca elétrica. Esse muros são móveis como vemos nos carros, e se criam quando nos mantemos em nossa realidade familiar mesmo que em outra realidade, não nos permitimos experienciar aquela outra verdade. E foi o que me fez notar que as cidades não são os monumentos ou paisagens que existem nelas, mas as pessoas. Os monumentos e paisagens são espaços para interações com essas pessoas, e o aprendizado, a experiência da viagem é quando você se abre para essa interação, a experiência se dá no encontro.
Logo eu encontrei a matemática básica que me ajudava a entender melhor a minha experiência na ETEC. O medo adicionado à Ignorância cria esses muros e também o ódio para as coisas que estão além das suas fronteiras. O que aconteceu então para que eu não acessasse essa defesa naquele ambiente? Eu percebi que, assim como na minha viagem, a Ignorância é na verdade o conhecimento de uma única verdade, quando eu permaneço com as pessoas que são iguais a mim eu me mantenho nessa mesma realidade, se não tem ninguém que eu conheça ali eu me torno um forasteiro, ao me tornar um forasteiro eu acesso o medo, que são as minhas armas, mas se no lugar do medo houver acolhimento eu não vou ter necessidade de usar as armas, vou me sentir constrangido por querer atacar enquanto as pessoas me dão amor. E foi o que aconteceu, quando me deparei com todas aquelas pessoas estranhas e eu estava sozinho, eu entrei na defensiva, mas quando fui recebido com amor eu não conseguia entender como pude odiá-las por tanto tempo.
Quando comecei a me permitir amar de volta eu passei olhar para o meu eu do passado e todas as pessoas da minha antiga convivência e perguntei a mesma coisa "Como vocês podem odiar quem os ama?", passei a odiá-los. Mas só depois de muito pensar que eu percebi que eu havia criado outro muro, estava encrustado em mim essa ideia de dicotomizar, alguém sempre deveria estar errado, alguém deveria ser o vilão e alguém o herói, mas o ódio e a violência só continuaria imperando enquanto eu antagonizasse de volta.
Notei que eu tive a chance de ser forasteiro e de ser acolhido, mas que nem todas tem a oportunidade de trocar a lente desse olhar deformado da realidade. Como vou saber se o desinfetante que meu vizinho faz em casa é muito melhor e mais barato que o que passa todos os dias na televisão sendo que ele me convence com todo o seu marketing que é melhor? Ele não necessariamente é melhor para mim, só tem mais dinheiro para ser televisionado, e me faz acreditar que quando vou no mercado estou escolhendo livremente, sem nem parar pra pensar o quanto democracia e demagogia, apesar de rimarem, são diferentes.
Mas como dar a oportunidade das pessoas se sentirem forasteiras e acolhidas se elas permanecem dentro de muros onde a única janela pra realidade é a TV? Afinal, é assim que o desinfetante do comercial fica cada vez mais rico e o vizinho que resolveu fazer um alternativa não é visto nem é consumido... É como se ele nem se quer existisse. Porque será que as alternativas não existem? Educação alternativa, mercado alternativo, cultura alternativa, mobilidade alternativa... Porque é tão difícil perceber as alternativas como possibilidades? Continuo sempre ouvindo aquela típica frase "Mas você pensa assim por que é hippie", ou pior: "Mas você pensa assim por que é mais inteligente", e seguimos criando muros maniqueístas: Aqueles são bons, aqueles maus, aqueles são certos, aqueles errados, aqueles inferiores, aqueles superiores, ao invés de observar a todos como possibilidades de viver uma mesma realidade.
Como que as grandes marcas, as formas comuns de mercado, a educação formal e etc se mantém então? Por que elas não respeitam muros, elas invadem pela TV, elas estão na escola, no clube, no meio do caminho. Nós não temos dinheiro para competir com toda essa propaganda, mas temos a rede, a teia... E com isso não digo só a internet, mas como seria se houvessem feiras espontâneas de quadrinhos no meio do passeio público? Montar barracas de degustação vegana em festivais de comida do bairro? Como seria se resolvessemos educar de forma alternativa no meio da rua? Fazer com que vejam alternativas, viver essa alternativa em rede, em grupo, viver uma cidade alternativa dentro da cidade e sem criar muros, mas sim aproximar mais gente.
As vezes até ao pensar coletivo nós nos distanciamos, nos limitando novamente em grupos que nos entendem e esquecendo de criar pontes pra que mais gente venha. Mas apesar de todos termos pontos de vista diferentes para a mesma realidade, todas essas pessoas que citei querem a mesma coisa: Transformar a cidade. E o que acontece se nós começamos quebrando os muros entre nós? Na escola a gente aprende sobre o habitat natural de vários mamíferos, mas por que não aprendemos sobre o nosso próprio habitat? Quando pessoas que pensam em alternativas pra educação se juntam tem mais ideias, quando pessoas que pensam em alternativas para mobilidade urbana  se juntam tem mais ideias, e se esses dois grupos se juntassem? Se juntassem ainda com quem faz ação social, faz horta comunitária, dá bom dia e boa noite pra todo mundo na rua, ou as vezes ainda não sabe o que fazer, mas tem vontade. Até onde poderíamos chegar com todas essas ideias pensando em uma cidade alternativa, mais humana, mais viva?
-Construindo pontes no lugar de muros
-Construindo estações de energia humana que acendam toda uma cidade (e além)
-Reformando e Pintando lugares com muitas cores (de pele, de roupas, de cultura, de ideias)
-Ocupando todo lugar com transformatividade
-Criando redes/teias entre coletivos, práticas, ações, espaços etc aproximando mais as muitas ideias.
E tudo isso começa quando se arregala os olhos, não basta só abrir, é preciso arregalar pra ter uma visão panorâmica de onde vivemos e convivemos.
Já que o todo é muito maior do que a soma das partes.
O meio, como disse antes, é o espaço para o encontro, então como manter a cidade se transformando para que os encontros permaneçam acontecendo e a experiência "cidade" se reinventando? E como se transforma esse meio se eu não tenho dinheiro, não tenho tempo, não tenho ideia? Já ouviu falar do poder da multidão? O poder da multidão muitas vezes é atrelado à coisas terríveis que foram feitas em conjunto, mas quando esse poder se encontra com a sabedoria da multidão muita coisa muda (não é só conhecimento, mas a sabedoria da multidão!), as ideias e as ações surgem, e essa força alcança possibilidades que pareciam impossíveis. É o poder da egrégora.
Por isso faço esse chamado para pensarmos juntos, para co-criarmos e vivenciarmos a cidade com mais pontos de vista. No Primeiro Encontro de Ideias Práticas para uma Cidade Transformativa, transformações ativas, contínuas, sustentáveis, e que até esse encontro se invente e reinvente sempre.


Vamos olhar juntos?



sábado, 20 de junho de 2015

Trajetórias do olhar. - A escolha dos mentores.

Quando comecei com essa ideia de fazer uma graduação informal eu comecei a ler muito sobre vivências parecidas, como a do Alex Bretas e do André Gravatá. Eu estava buscando respostas, formatos. Sem entender que a educação é um processo individual dentro de um  processo coletivo. Ou seja, minhas demandas, necessidades e pontos de vista são diferentes das demandas, necessidades e pontos de vista do Alex, do André ou seja lá de quem for. Eu tenho uma forma de apreender a vida que já está dentro de mim.
A princípio eu havia criado um esquema muito concreto para essa graduação: onde eu tinha mentores e disciplinas previamente estabelecidas, mas daí entra o coletivo... A minha demanda encontra a demanda do outro e isso cria uma possibilidade. Dentro dessa lista de mentores então eu resolvi que as matérias deixariam de ser o que EU julgava que aquela pessoa poderia me oferecer, e passariam a ser eles mesmos, e como a troca genuína poderia ser construtiva.
Entretanto muitas pessoas começaram a aparecer no meu processo durante esse tempo, e eu comecei a perceber que aquela lista antiga precisava ser atualizada. E mais do que isso: eu recebi alguns "Nãos" de mentores, mas isso veio pra mim como uma dúvida, "Esse "não" finaliza um processo?", e em seguida outras muitas perguntas se levantaram "Eu escolho com quem vou aprender?", "Eu escolho onde vou aprender?", "Eu escolho quando vou aprender?", "Eu escolho quem vou ensinar?"...
Fui descobrindo um dos estilhaços da escola em mim "É preciso haver um espaço e momento pré determinado de aprendizado?", "É preciso haver um corpo docente e um corpo dissente e uma distinção muito clara entre eles?"... E eu pude observar que isso tudo é muito mais natural do que eu estava me propondo a fazer. Eu estou aprendendo, experimentando e vivenciando todo instante, estou ensinando sempre sem perceber. E isso é a energia criativa e inquieta que tenho dentro de mim, que todos tem... Essa é a educação natural... A criança não tem aulas para aprender a andar ou falar, ela simplesmente observa, experimenta, descobre. A semente não tem aulas de como germinar, se alimentar, e crescer, isso tudo está lá dentro.
Foi num diálogo com uma amiga minha que percebi que temos uma ideia de que nós só podemos aprender em lugares destinados à esse aprender, sem tomar consciência de que estamos aprendendo o tempo todo... Por isso eu mudei meu foco para a vivência, me permitir aprender em todo lugar, com todos, e até mesmo com quem eu estarei disposto a ensinar nesse percurso. Deixará de existir esse docente e esse dissente, e surgirão dois seres (ou mais) igualmente diferentes e dispostos a compartilhar, trocar.
Ainda pretendo ter diálogos com as pessoas que listei no começo do processo, mas as minhas matérias deixam de ser pessoas específicas, e se tornam as pessoas possíveis que posso conhecer no mundo, na vida...
Minha graduação informal está caminhando para um espaço de aprendizado dentro de mim mesmo, como se eu levasse a escola na mochila, assim tendo a consciência de que a situação mais inesperada pode estar me ensinando.

***

Uma das mentoras que havia escolhido previamente se chama Daniela Alves, ela foi minha professora de filosofia no ensino médio, mas sinto que não pudemos aproveitar a real aprendizagem no espaço em que convivíamos, por isso agora que deixei a escola voltei a ter um diálogo com essa professora onde traçamos algumas possibilidades práticas. 
Além de aprender com a Dani eu estarei disposto a aprender com as vivências dos alunos dela, e das possibilidades que poderão surgir criando um curso livre em meu bairro... Aos poucos vou comentar das pessoas da lista e como serão nossas trocas, e também das novas pessoas e vivências que forem aparecendo no percurso que é esse olhar atento à educação.



Bons olhares.

domingo, 14 de junho de 2015

Lentes e graus, formas de ver o mesmo ponto.

Havia feito uma lista dos defeitos que vejo na escola, mas percebi que eu não estava respondendo a pergunta que eu levantei:
"Quais aspectos da escola existem em mim?"
E não se tratava de simplesmente enumerar o que eu discordava nela, mas sim de tentar destrinchar como eu percebia isso. Uma das primeiras coisas que eu poderia listar na escola é que ela dicotomiza tudo, sempre há um lado certo e um errado, ora, se eu estava tentando mostrar o quão a escola está errada e eu certo, eu estava fazendo exatamente o que digo que ela ensina.
Então como levantar essas questões a partir do meu olhar infantil e não do julgamento que está encrustado nele? Como não dizer que a escola está errada, mas sim que me causa determinado sentimento por conta de determinada necessidade minha que não é atendida?
Resolvi listar aqui a foma como eu olhei com julgamento, e em seguida como eu me permitiria a olhar como uma criança (desaprender).

(*As "verdades" e "respostas" que ouvi com julgamento estão em negrito, o restante são formas de tentar perceber isso em mim.)

-Crianças são adultos incompletos. Adultos não podem mais mudar. -Só os superiores (adultos, professores, doutores) detém o conhecimento, o poder de escolha e a voz.
Eu tenho medo de ser tratado com diferença por ser mais novo, me sinto frustrado quando dizem que eu só tenho dezessete anos e isso é motivo para o que quer que seja, tenho a necessidade de ser considerado alguém que não é incompleto por ser mais novo, isso não quer dizer que eu tenha necessidade de estar completo, mas sim que eu tenho a necessidade de estar aberto, pleno, e em constante questionamento. Eu me sinto preocupado, pois tenho a necessidade de me manter nesse fluxo mesmo quando adulto, tenho receio me acomodar.
Me sinto inferior pois tenho necessidade de ser tratado com igualdade, de ser reconhecido pelo que sou e não pelos títulos que tenho. Tenho medo por que preciso ser ouvido independente da minha idade, das minhas escolhas, das minhas condições financeiras, fama, posição em uma hierarquia, etc.


-Divisão por idades, por turmas, por conhecimentos, matérias, "veteranos" e "bichos". -É preciso competir na escola para aprender a sobreviver no mundo competitivo.
Sinto necessidade de interagir com todas as possibilidades e ficar distante das possibilidades me frustra. Sinto vontade de aprender o outro e com o outro, independente de qualquer coisa, e sinto necessidade de estar livre para essa interação também. Sinto que aproveito pouco o aprendizado pois tenho a necessidade de compartilhar e cooperar com todas as formas de olhar.

-As relações só funcionam pelo medo do castigo ou a esperança da recompensa. -O conflito é prejudicial. -A resolução de problemas deve ser feita rapidamente com um lado certo e um lado errado.
(Aqui chego na questão, é muito simples "resolver um conflito" apontando as falhas, mas está sendo um caminho muito árduo não resolver simplesmente um conflito, mas sim encontrar soluções que satisfaçam e entendam à todos, talvez ao final do texto eu note que não consegui isso, mas falarei sobre resultado num tópico mais a frente)
Me sinto sem alternativa pois tenho a necessidade de ter escolhas por livre e espontânea vontade. Me sinto falso por ter necessidade de dar um perdão genuíno e sincero. Me sinto frustrado pois tenho necessidade de entender os dois lados do conflito.

-Alguns são naturalmente talentosos e outros incapazes. -Só o conhecimento acadêmico é importante e útil. -Os conhecimentos devem seguir um padrão de qualidade baseado em números ou adjetivos.
Me sinto triste pois tenho a necessidade de ter meu talento reconhecido. Me sinto inseguro pois tenho a necessidade de ser um "dez" um "MB"(muito bom) e não um "0" ou um "I"(insatisfatório). Me sinto um estranho pois tenho necessidade de ter meu conhecimento aceito. Me sinto triste, pois tenho a necessidade de ser valorizado.

-A diversão tem horário certo, no resto do tempo devemos fazer coisas que não são prazerosas. -Só aprendemos em locais de ensino. -Se você não se adéqua você é doente ou desobediente. -Todos precisam ser iguais: Uniformizados, aprendendo as mesmas coisas.
Me sinto desgostoso, pois tenho necessidade de aprender à todo instante de forma alegre e prazerosa. Me sinto desconfortável, pois tenho a necessidade de me sentir livre e seguro de ser como sou nos lugares. Me sinto insignificante, pois tenho necessidade de ter minha individualidade valorizada.

-O resultado é mais importante que a experiência. -O erro não é aceitável.  -Só aprendemos com respostas. -É preciso fazer as coisas numa ordem cronológica, mesmo que ela seja desnecessária. -Precisamos provar que somos bons para os outros. -Precisamos ter sucesso. Sonhos não alimentam. -É preciso aprender sem questionar, apenas receber a verdade. -Só o certificado legitima seu conhecimento.
Me sinto frustrado pois tenho necessidade de alcançar um objetivo concreto e isso não me permite ver os aprendizados que obtive com a simples experiência. Me sinto aterrorizado pois tenho necessidade de estar seguro para errar e aprender com os erros, mas tenho medo de meu erro não ser aceito. Me sinto triste, pois tenho necessidade de estar livre para ter minhas dúvidas e descobrir a partir delas, sem ficar tímido por não saber. Me sinto sem saída, pois tenho a necessidade de aprender no meu tempo, e ter esse tempo respeitado. Me sinto ilegítimo, pois tenho necessidade de fazer as coisas por mim, e me sentir satisfeito e bom com meu próprio processo sem precisar provar isso. Sinto raiva, pois tenho necessidade de viver meus sonhos, e me permitir aprender com minhas experiências, de modo que o sucesso e o resultado sejam apenas possibilidades de aprender também. Sinto medo, pois tenho a necessidade de questionar todas as verdades que me são apresentadas sem que isso incomode. Me sinto frustrado, pois necessito ser mais importante que meus títulos.

***

É difícil encontrar minhas necessidades e meus sentimentos dentro do meu olhar de julgamento (notei que preciso encontrar sinônimos para frustrado, ou que simplesmente me frustro muito hehe), mas é inegável como isso me deixa mais leve.
Mas será que a escola que temos não precisa repensar também os sentimentos e as necessidades da educação e dos educandos?
E você? Encontrou a escola aí dentro? E como poderia dizer isso sem um olhar de julgamento, mas pensando em sentimentos e necessidades?



Nos vemos! Bons olhares para vocês...



Trocando de Lente

O céu é cor-de-alface, e a alface tem gosto de sítio da vó, leite tem cheiro de mãe, e círculo é o que eu tenho no meio da barriga, pai é boneco palito, arvore é cor-de-rosa, menina tem cor de céu, que não é alface, era ontem, hoje tá assim, cor de lápis de cor, de giz de cera.
Criança tem olhar de filósofo, e filósofo tem olhar de criança. De ver pela primeira vez o que a gente vê todo dia e entende como se fosse aquilo e pronto. Nosso olhar aos poucos é construído, e de criança com dúvidas nos tornamos adultos cheios de certezas. Mas quando estamos cheios, nada mais cabe, e a gente se deforma pra caber em algo.
O olho é uma massinha de modelar, que todo mundo molda um pouco e a gente começa a ver a partir das digitais de dedadas dos outros.
Mas como a gente vê pelo nosso olho próprio, sem as sujeiras e embelezamentos que colocaram na gente? Como a gente vê que nem criança de novo? Como a gente desintoxica... Como a gente descobre e entende essa tal de anatomia do olhar?
O que resta de mim se tudo for retirado?

Foi num desses dias que de tanto odiar a escola, que eu percebi que ela tava em mim, me fazendo enxergar, receber e perceber escola, e onde ela tava? Tava em cada insegurança mais banal, até grandes medos, tava encrustada, misturada, enfiada feito farpa, deformando a minha realidade como um buraco negro distorce o universo.
No final a gente vai vendo o quanto é adestrado pra esquecer quem somos de verdade. Aprendi certa vez que os livros mantém seus autores eternos, mas isso não é nada diante do adestramento: quando a gente segue esses padrões nós estamos mantendo alguém e suas ideias vivas para sempre, o corpo é efêmero, mas essas ideias perduram como uma doença genética, como um cromossomo que nos deforma. Nós deixamos de ser um ser, e nos tornamos uma sociedade (antissocial), uma egrégora monstruosa, a mente de um ser antigo.
E tudo que nos diz que o certo é uma única forma só nos mantém vivendo esse monstro, não importa se a ideia é boa ou ruim, a única coisa que nos torna seres é a consciência, é perceber quem é você apesar das deformações.

E quem é você? Quem sou eu?
Só sei que nada sei, por que quem está cheio de respostas não tem espaço pra mais perguntas.


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Antes de aprofundar no processo da graduação farei algumas postagens com as perguntas que me trouxeram até aqui.
Logo voltarei com as "respostas" que consegui passando pelo processo de achar a escola em mim e as perguntas que encontrei em mim para voltar ao meu olhar "infantil".
E você? Já encontrou as "verdades" que te deformam?

Bons olhares.