domingo, 14 de junho de 2015

Trocando de Lente

O céu é cor-de-alface, e a alface tem gosto de sítio da vó, leite tem cheiro de mãe, e círculo é o que eu tenho no meio da barriga, pai é boneco palito, arvore é cor-de-rosa, menina tem cor de céu, que não é alface, era ontem, hoje tá assim, cor de lápis de cor, de giz de cera.
Criança tem olhar de filósofo, e filósofo tem olhar de criança. De ver pela primeira vez o que a gente vê todo dia e entende como se fosse aquilo e pronto. Nosso olhar aos poucos é construído, e de criança com dúvidas nos tornamos adultos cheios de certezas. Mas quando estamos cheios, nada mais cabe, e a gente se deforma pra caber em algo.
O olho é uma massinha de modelar, que todo mundo molda um pouco e a gente começa a ver a partir das digitais de dedadas dos outros.
Mas como a gente vê pelo nosso olho próprio, sem as sujeiras e embelezamentos que colocaram na gente? Como a gente vê que nem criança de novo? Como a gente desintoxica... Como a gente descobre e entende essa tal de anatomia do olhar?
O que resta de mim se tudo for retirado?

Foi num desses dias que de tanto odiar a escola, que eu percebi que ela tava em mim, me fazendo enxergar, receber e perceber escola, e onde ela tava? Tava em cada insegurança mais banal, até grandes medos, tava encrustada, misturada, enfiada feito farpa, deformando a minha realidade como um buraco negro distorce o universo.
No final a gente vai vendo o quanto é adestrado pra esquecer quem somos de verdade. Aprendi certa vez que os livros mantém seus autores eternos, mas isso não é nada diante do adestramento: quando a gente segue esses padrões nós estamos mantendo alguém e suas ideias vivas para sempre, o corpo é efêmero, mas essas ideias perduram como uma doença genética, como um cromossomo que nos deforma. Nós deixamos de ser um ser, e nos tornamos uma sociedade (antissocial), uma egrégora monstruosa, a mente de um ser antigo.
E tudo que nos diz que o certo é uma única forma só nos mantém vivendo esse monstro, não importa se a ideia é boa ou ruim, a única coisa que nos torna seres é a consciência, é perceber quem é você apesar das deformações.

E quem é você? Quem sou eu?
Só sei que nada sei, por que quem está cheio de respostas não tem espaço pra mais perguntas.


*****

Antes de aprofundar no processo da graduação farei algumas postagens com as perguntas que me trouxeram até aqui.
Logo voltarei com as "respostas" que consegui passando pelo processo de achar a escola em mim e as perguntas que encontrei em mim para voltar ao meu olhar "infantil".
E você? Já encontrou as "verdades" que te deformam?

Bons olhares.


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